terça-feira, 8 de abril de 2014

Rótulos

Era engraçada a forma como tudo se encaixava.

Ele e ela ali sentados, à espera de uma garrafa de vinho, se abraçando e se amando.

Para ele, ela era “Linda”. Para ela, ele era “Sorriso”.

Ela achava isso engraçado, principalmente porque para seu irmão ela era apenas “chata”. Para os pais, ela era “futuro”. Para os avós, “esperança”. Para aquela amiga de infância, “companheira” e para sua vizinha, “arrogante”.

Mas isso era o que ela sabia. Não tinha nem ideia de que para um colega de trabalho, tímido e que senta em frente, ela era “sonho”. Para a chefe, “solução”. Já para a secretária da empresa, ela era “simpática”. Para sua colega de trabalho, “amiga”, já para a estagiária, era “gente boa”.

Já ele, na visão dos pais era “de ouro”. Para irmã, “mimado”. Para o vizinho, “folgado”. Para a menina que morava no andar de cima, e que todas as vezes em que eles se cruzavam olhava pro chão constrangida, era “desejo”.

Ele só não sabia que, para o chefe era “esforçado”. Para o colega de trabalho, “invejoso”. Para seu estagiário, “manso”. A secretária o via como “interessante". O faxineiro, “educado”.

Entre ambos, era curioso que ela se achasse “romântica” e ele se definisse “apaixonado” já que ele cismava que ela era “teimosa” na maior parte do tempo e ela gritasse o quanto ele era “irritante”. Mas no fim, se resolviam.


Ele não sabia, mas para o ex-namorado dela, a quem ela deixou, era “lembrança”. Mas tudo bem, afinal ela também não sabia que para a ex-namorada, que o deixou, ele era “passado”. 

O garçom, enfim, traz a garrafa de vinho e o deixa experimentar. Mas ele não gosta, diz que é muito forte e pede um mais fraco. Ela o considera “entendido”, ele pensa que é “preocupado”, mas ambos não sabem que o garçom o considera “fresco”.

O celular dele vibra, recebendo uma mensagem de sua mãe. Ela acha a sogra “protetora”, enquanto ele define a mãe como “insistente”. Mas ambos nem tocam no assunto, pois ele não quer que ela saiba que sua mãe a considera “espaçosa”, ao contrário do seu pai que a considera “simpática”. Ela nem imagina que os sogros a vêm por esse prisma. Pois acredita que aos olhos deles, ela é “ideal”. Só acha que a cunhada, que a considera “atrevida”, não goste muito dela.

Ele responde a mensagem da mãe, guarda o celular no bolso e volta a dar atenção a ela. Mais abraços e beijos até que o garçom traz o novo vinho. Este passa a ser “ótimo”, enquanto ele passa a ser “exigente” aos olhos do garçom.
Vinho na mesa, conversas fluindo bem até ela falar sobre o aniversário da mãe com ele. Ele até achava a sogra “gentil” – embora achasse o sogro “estressado”, mas não queria ir à festa por causa do “arrogante” cunhado.

Ela não quis contar que o cunhado o considerava “desleixado” demais, nem que a mãe não era tão “santa” assim, pois o considerava um tanto quanto “estagnado”. Por incrível que pareça, o pai dela o considerava “inteligente”, mas também achou melhor não contar para ele não ficar se achando.

Entre mais taças de vinho, acompanhadas dos beijos e abraços daquele casal, as pessoas ao redor olhavam.

A moça, da mesa ao lado, achava que eles eram “fogosos” demais. Enquanto o casal da mesa atrás os considerava “aparecidos”. Um dos garçons achou que ela era “gorda”, enquanto o gerente acreditava que ele era “rico”.

Conta fechada. Ele quis pagar para ser “cavalheiro”. Mas ela não aceitou e dividiu, pois é “justa”. O gerente apenas agradeceu e considerou aquele casal bem “generoso”. Despediram-se e todos se consideraram “satisfeitos”.

E sem se importar com os rótulos que todos atribuem a todos, foram embora.


“Felizes”.


Guilherme Cunha. Ex-advogado. Futuro escritor. É apenas mais um trabaiadô,doutô. Mais um nerd gordo que acha que é blogueiro. Apreciador de boa cerveja, boa música, boa conversa e de paciência Spider. Melhor jogador de War com as peças verdes. Siga-o no twitter: @guijermoacunha 

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