quarta-feira, 7 de maio de 2014

Bolo Mortífero

No dia em que eu criei esse blog tive várias dúvidas: que tipo de texto postaria, qual seria o nome do blog, como assinaria os textos e etc. Só tinha certeza de que haveria um espaço chamado “coisas que acontecem comigo”.

E digo isso porque tem coisas que realmente só acontecem comigo. E quem me conhece sabe disso.

Senão é verdade, como explicar o fato de um simples favor quase me fez bater as botas? Melhor contar direito, né?

Bom, foi aniversário de uma amiga minha. Durante a semana, ela me ligou e fez um simples pedido:

- Gui, você conhece a Rua Vila Rica?

- Claro, morei nela. É perto da minha casa.

- Ótimo! Meu bolo fica pronto no sábado, às 11:30 e tenho que buscar lá, mas você sabe que eu não tenho carro.

- Sem problema, eu pego pra você!

- Que bom! E você nem vai precisar pagar porque eu comprei uma promoção no Peixe Urbano e é só entregar o cupom. O pedido é um bolo e 100 docinhos.

- Ok!

Que problema haveria nisso? É algo simples de se fazer, perto da minha casa, não me daria nenhum trabalho e ainda poderia roubar uns doces.

E às 11:30, como um perfeito agente secreto inglês que sou, estava lá na porta. A casa me assustou um pouco, pois o mato na frente estava um pouco alto, cerca de 2m de altura, e os latidos que pareciam ser oriundos de lobos famintos do deserto do Atacama fizeram meu já conhecido sentido de aranha ser ativado.  Mas toquei a campainha.

A casa era quase assim. Só possuia mais matagal na fachada...
- Pois não!

- Oi! Bom dia. Vim buscar o bolo da Fulana.

- Ah, claro, pode entrar.

Nesse momento, passei pelo portão e senti que aquele caminho poderia não ter volta. Se soubesse que teria que atravessar aquela floresta tropical, teria feito uso do embornal, chapéu e chicote como fiz duas vezes (aqui e aqui, lembram?). Porém, desprevenido, entrei apenas com minha bermuda, camisa e chinelo mesmo.

- Obrigado.

- Pode se sentar aqui. Já volto.

Ela apontou um sofá, encostado na parede da sala e que ficava de frente para um quarto. Eu imagino que especialistas na Era Paleozóica iriam fazer a festa naquela sala pela quantidade de itens antigos que devem ter vindo para o Brasil nas caravelas do Cabral.

Até aí, tudo bem, mesmo com o cheiro de coisa velha misturado com mofo. Até a hora em que, sentado, olhei para dentro do quarto ao lado.

Olha, eu juro que se tivesse tomado Activia nesse dia, somente fraldas me poupariam do vexame que eu daria no momento.

Havia um corpo estendido na cama, coberto por um lençol branco, apenas com os pés à mostra. Os pés estavam aparentemente enrijecidos, pois não estavam caídos.

Um frio polar percorreu minha medula e, sinceramente, não sabia o que fazer.

Olhei para os lados, esfreguei os olhos, rezei Pai-Nosso, Ave-Maria, CreinDeusPai e pedi para acordar, mas continuei imóvel.

Como tenho miopia, inclinei o corpo um pouco a frente e estiquei o pescoço à frente e comprimi os olhos, tentando enxergar melhor... até que senti uma mão no ombro.

Eu juro que a última vez que eu passei um susto tão grande foi quando o Jorge Luís era zagueiro do Galo. Minha vontade na hora era ter saltado e grudado as unhas no teto, como um gato faz quando é surpreendido. Mas como não era possível, eu apenas fechei os olhos e comecei a rezar de novo, quase chorando.

- Moço...

- Oi. – respondi quase chorando e tão baixinho que só os cachorros devem ter ouvido naquela freqüência baixa.

- Só mais uns 3 minutinhos tá? Estamos acabando a cobertura do bolo.

- Ok.

E a moça saiu da sala. Na hora achei que era alguma pegadinha do Sílvio Santos e relaxei, até porque imaginei o bullying que sofreria se aparecesse na televisão daquele jeito (principalmente pelo fato de ser no SBT).

Quando meus batimentos estavam voltando para 180, ouço uma voz masculina.

- Oi.

Olhei para os lados e não vi ninguém. Fiquei com medo de olhar para o quarto. Olhei para baixo. Morrendo de medo olhei para trás. Mas não tinha ninguém. E a voz repetiu

- Oi.

Nesse momento, eu tenho certeza de que sofri o primeiro ataque cardíaco da minha vida devido a voz do espírito que falava comigo.

- Ah sim. Liguei mesmo.. pois é, faleceu hoje. Estamos esperando o carro da funerária aqui. Não, a Betinha que foi olhar isso tudo. Quando souber do horário do velório e do enterro eu te falo. Tá. Abraço. Tchau.

Fiquei tranqüilo porque percebi que era um homem ao telefone, mas desesperei de novo porque tinha certeza de que o corpo no quarto era de alguém falecido mesmo.

Resolvi levantar, fingir que estava no telefone e gritei para a atendente: “Moça, eu to lá fora numa ligação”. Saí da casa sem olhar pra trás e com a certeza de que, muito provavelmente, o espírito daquela pessoa falecida estava rindo de mim de todas as formas.

Assim que o bolo foi entregue, já o coloquei no chão do carro e saí cantando pneu daquela casa da Família Adams. Graças a Deus, são e salvo.

Ah, e antes que perguntem. Sim, comi o bolo e estava uma delicia.

Não, o bolo não era esse. Mas poderia ter sido...


Guilherme Cunha. Ex-advogado. Futuro escritor. É apenas mais um trabaiadô,doutô. Mais um nerd gordo que acha que é blogueiro. Apreciador de boa cerveja, boa música, boa conversa e de paciência Spider. Melhor jogador de War com as peças verdes. Siga-o no twitter: @guijermoacunha

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